Dois anos após autorização pelo BNA, bancos comerciais só libertaram às famílias 70,3 mil milhões Kz em crédito à habitação.

Criado há dois anos e apresentado como o "trunfo" para que a banca financie a compra ou a construção de habitação aos cidadãos, o instrumento sofreu alterações no ano passado, mas ainda assim não atingiu as expectativas geradas aquando do seu lançamento.

Um total de apenas 70,3 mil milhões de Kwanzas de crédito à habitação, ao abrigo do Aviso 9 do Banco Nacional de Angola (BNA) foi o quanto os 23 bancos comerciais que operam em Angola libertaram para ajudarem as famílias na compra de casas ou terrenos, um mecanismo criado para dinamizar este segmento, de acordo com números do banco central.

Para já, e como já passam vários meses desde a implementação do projecto, especialistas consideram que o montante não representa as necessidades de quem ainda espera realizar o sonho da casa própria.

Criado há dois anos e apresentado como o "trunfo" para que a banca financie a compra ou a construção de habitação aos cidadãos, o instrumento sofreu alterações no ano passado, mas ainda assim não atingiu as expectativas geradas aquando do seu lançamento.

"Dado o facto de o cumprimento integral dos requisitos e condições estarem associadas a factores exógenos, os números ainda não são os expectáveis, embora já se verifiquem indícios de alguma melhoria no acesso ao crédito à habitação", respondeu fonte do BNA, citada pelo Expansão.

De acordo com o banco central, "desde a entrada em vigor do Aviso n.º 09/2022, de 6 de Abril, até Abril do ano em curso, foram concedidos créditos à habitação e à construção num valor global de cerca de 70,27 mil milhões de Kwanzas."

Deste montante, parte significativa corresponde ao crédito à habitação própria, suportado por sete bancos sistémicos e dois não sistémicos, explica o BNA em resposta a questões colocadas pelo Expansão, embora não avance o nome dos bancos por se tratar de questões associadas à Central de Informação e Risco de Crédito.

Especialistas consideram que o montante de crédito à habitação disponibilizado em dois anos é baixo para a realidade do mercado.

"Estes 70,3 mil milhões Kz que os bancos disponibilizaram não significa quase nada para o número de clientes que procuram financiamento para compra ou construção das suas habitações. Este aviso do BNA quase não vai resolver a situação, porque os bancos não querem correr riscos e preferem financiar outros instrumentos com mais rentabilidade e menos riscos", considera o economista Pedro Silva.

O economista entende ainda que as condições deste instrumento de financiamento também condicionam o seu sucesso. "De certa forma, a decisão final de conceder ou não o crédito é da responsabilidade dos bancos. E estes acabam por colocar um conjunto de exigências, mesmo não atropelando o aviso do BNA, que muitos trabalhadores não conseguem cumprir”, considera o analista.

Perante este cenário, o banco central não descarta a possibilidade de mais alterações ao documento, depois das últimas realizadas em Agosto do ano passado.

"O BNA tem ajustado os seus instrumentos regulamentares às necessidades do mercado em função das dinâmicas económico-sociais, razão pela qual publicou um novo normativo sobre o crédito à habitação e à construção 16 meses após a publicação do normativo inicial. Porém nada impede que o mesmo sofra alterações sempre que se considere necessário e pertinente", lê-se nas respostas do BNA ao Expansão sobre o Aviso n.º 09/2022, de 6 de Abril.

Condicionalismos da banca

As dificuldades em apresentar garantias à banca continua a ser o principal entrave ao crédito à habitação, o que, aliado aos fracos rendimentos da maioria da população, faz com que este tipo de crédito tenha pouco peso na carteira de financiamento dos bancos que preferem apostar noutros produtos mais seguros e rentáveis.

"Os bancos estão a pedir garantias que dificilmente conseguimos. E também os salários condicionam. Poucos funcionários públicos ganham o suficiente para conseguirem um empréstimo de 100 milhões de Kz", disse o agente imobiliário Carlos João.

Dois anos após autorização pelo BNA, bancos comerciais só libertaram às famílias 70,3 mil milhões Kz em crédito à habitação

Criado há dois anos e apresentado como o "trunfo" para que a banca financie a compra ou a construção de habitação aos cidadãos, o instrumento sofreu alterações no ano passado, mas ainda assim não atingiu as expectativas geradas aquando do seu lançamento.

Jul 4, 2024 - 15:09
Última atualização   - 15:49
Dois anos após autorização pelo BNA, bancos comerciais só libertaram às famílias 70,3 mil milhões Kz em crédito à habitação
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Dois anos após autorização pelo BNA, bancos comerciais só libertaram às famílias 70,3 mil milhões Kz em crédito à habitação

Um total de apenas 70,3 mil milhões de Kwanzas de crédito à habitação, ao abrigo do Aviso 9 do Banco Nacional de Angola (BNA) foi o quanto os 23 bancos comerciais que operam em Angola libertaram para ajudarem as famílias na compra de casas ou terrenos, um mecanismo criado para dinamizar este segmento, de acordo com números do banco central.

Para já, e como já passam vários meses desde a implementação do projecto, especialistas consideram que o montante não representa as necessidades de quem ainda espera realizar o sonho da casa própria.

Criado há dois anos e apresentado como o "trunfo" para que a banca financie a compra ou a construção de habitação aos cidadãos, o instrumento sofreu alterações no ano passado, mas ainda assim não atingiu as expectativas geradas aquando do seu lançamento.

"Dado o facto de o cumprimento integral dos requisitos e condições estarem associadas a factores exógenos, os números ainda não são os expectáveis, embora já se verifiquem indícios de alguma melhoria no acesso ao crédito à habitação", respondeu fonte do BNA, citada pelo Expansão.

De acordo com o banco central, "desde a entrada em vigor do Aviso n.º 09/2022, de 6 de Abril, até Abril do ano em curso, foram concedidos créditos à habitação e à construção num valor global de cerca de 70,27 mil milhões de Kwanzas."

Deste montante, parte significativa corresponde ao crédito à habitação própria, suportado por sete bancos sistémicos e dois não sistémicos, explica o BNA em resposta a questões colocadas pelo Expansão, embora não avance o nome dos bancos por se tratar de questões associadas à Central de Informação e Risco de Crédito.

Especialistas consideram que o montante de crédito à habitação disponibilizado em dois anos é baixo para a realidade do mercado.

"Estes 70,3 mil milhões Kz que os bancos disponibilizaram não significa quase nada para o número de clientes que procuram financiamento para compra ou construção das suas habitações. Este aviso do BNA quase não vai resolver a situação, porque os bancos não querem correr riscos e preferem financiar outros instrumentos com mais rentabilidade e menos riscos", considera o economista Pedro Silva.

O economista entende ainda que as condições deste instrumento de financiamento também condicionam o seu sucesso. "De certa forma, a decisão final de conceder ou não o crédito é da responsabilidade dos bancos. E estes acabam por colocar um conjunto de exigências, mesmo não atropelando o aviso do BNA, que muitos trabalhadores não conseguem cumprir”, considera o analista.

Perante este cenário, o banco central não descarta a possibilidade de mais alterações ao documento, depois das últimas realizadas em Agosto do ano passado.

"O BNA tem ajustado os seus instrumentos regulamentares às necessidades do mercado em função das dinâmicas económico-sociais, razão pela qual publicou um novo normativo sobre o crédito à habitação e à construção 16 meses após a publicação do normativo inicial. Porém nada impede que o mesmo sofra alterações sempre que se considere necessário e pertinente", lê-se nas respostas do BNA ao Expansão sobre o Aviso n.º 09/2022, de 6 de Abril.

Condicionalismos da banca

As dificuldades em apresentar garantias à banca continua a ser o principal entrave ao crédito à habitação, o que, aliado aos fracos rendimentos da maioria da população, faz com que este tipo de crédito tenha pouco peso na carteira de financiamento dos bancos que preferem apostar noutros produtos mais seguros e rentáveis.

"Os bancos estão a pedir garantias que dificilmente conseguimos. E também os salários condicionam. Poucos funcionários públicos ganham o suficiente para conseguirem um empréstimo de 100 milhões de Kz", disse o agente imobiliário Carlos João.